Multidimensionalidade do sofrimento social em desastres relacionados a eventos hidrológicos opostos: um estudo comparado dos discursos jornalísticos
Introdução
Os desastres associados ao excesso e à escassez hídrica estão se tornando mais recorrentes e intensos em várias cidades e estados do país, inclusive no estado de São Paulo, considerado o mais desenvolvido economicamente dentre as Unidades Federativas do país. Exemplos recentes destes acontecimentos socioambientais desafiadores, que estão se tornando frequente, foram as decretações de emergência havidas nos municípios paulistas de Socorro, em 2023, associada a uma intensa precipitação pluviométrica, e de Artur Nogueira, em 2024, associada à estiagem prolongada. Ao se inserirem em tais contextos hidrológicos adversos, as comunidades afetadas nestes dois municípios tiveram que lidar com disjunções em sua vida cotidiana, o que suscitou sofrimento social para os seus membros.
Como ocorre em contextos afins, cada qual experienciou os seus desafios e a sua dor, bem como se compadeceu das agruras alheias, de um modo particular, em conformidade com os componentes intersubjetivos dos envolvidos; o tipo de vínculo social estabelecido entre eles; o repertório de sentidos que os une ou os distingue; a natureza específica da articulação entre os elementos constitutivos dos prejuízos, perdas e danos havidos; por fim, coadunado com as demais características socioculturais e comportamentais que definem o contexto socioespacial e os modos/estilos de vida implicados (TURNER, 2012; VALENCIO e VALENCIO, 2018a). Além desses variados compósitos na trama individual, familiar e comunitária de vivenciamento de um desastre, é suposto que a especificidade do evento ameaçante, durante e após a sua plena manifestação, corresponda a agravos igualmente peculiares, caso não haja o acionamento tempestivo de estratégias compatíveis na redução dos riscos. Nos casos em tela, ocorridos em Socorro e em Artur Nogueira, supõe-se que os atributos hidrológicos tão díspares dos eventos havidos – de um lado, inundações provocadas por precipitação pluviométrica concentrada/intensa e, de outro, escassez hídrica prolongada e medidas tempestivas de racionamento no abastecimento público – tenham suscitado conjuntos consideravelmente distintos de prejuízos, perdas e danos nestas localidades, diferenciando, portanto, o tipo de sofrimento social que acometeram os seus membros. Uma das formas de constatar a existência ou não de tais distinções entre o conjunto de agravos havidos é através dos registros jornalísticos disponíveis acerca dos referidos casos. Porém, o conteúdo desses registros pode guardar um paradoxo, qual seja: na medida em que informa e esclarece o público sobre as ocorrências, destacando tal ou qual aspecto desafiador ou dramático vivenciado pela comunidade afetada, também é passível de produzir enquadramentos genéricos e padronizados que invisibilizam e/ou retiram a complexidade dos acontecimentos publicizados, pasteurizando-os.
Ocorre que, na fase aguda destes tipos opostos de contexto hidrológico, a grande mídia e as mídias profissionais locais têm acesso privilegiado tanto aos grupos sociais afetados quanto às autoridades constituídas, podendo, assim, extrair ‘furos’ jornalísticos, cuja possibilidade de maior repercussão subsidiará a formação de uma opinião pública homogeneizada a esse respeito. Não raro, para ter acesso ao que costuma ser tecnicamente denominado, pelas defesas civis, como ‘teatro de operações’ – isto é, a zona quente dos acontecimentos –, repórteres fazem acordos tácitos com as autoridades para que estas lhes franqueiem a presença e o registro inédito de imagens e de vozes locais, ao custo de não lhes imputar – ao menos, não com a severidade necessária – eventuais responsabilidades por negligência, imprudência ou imperícia (SCALON; ALLDRED, 1982; VALENCIO, N. e VALENCIO, A., 2018b).
Diante isso, esse estudo propõe descrever o conjunto de elementos de prejuízos, perdas e danos que os registros jornalísticos exploraram, em suas notícias e reportagens, sobre os supramencionados casos ocorridos nos municípios de Socorro e de Artur Nogueira, a fim de explicitar quais similares e/ou distinções entre os agravos havidos nestes casos o discurso jornalístico capturou.
O caso das inundações ocorridas em Socorro, com grande intensidade, em 21 de janeiro de 2024 – após uma ocorrência prévia similar no final do ano de 2023 –, e da crise hídrica pela qual Artur Nogueira atravessou no segundo semestre de 2024 – deflagrada em 30 de julho do referido ano – produziram agravos multifacetados e acima da capacidade de suporte das autoridades locais, levando-as a decretar emergência. O acionamento institucional desse dispositivo legal, que tornou público a situação dramática experenciada pela comunidade e autoridades locais, colocou-os em circunstâncias excepcionais e coletivas de exposição de seus infortúnios súbitos e involuntários, chamando a atenção da mídia profissional para explorar mais detidamente os acontecimentos.
Material e Métodos
Apoiando-se numa revisão de literatura do campo crítico das Humanidades e Ciências Sociais, particularmente das áreas de Sociologia dos Desastres e de Comunicação Social, fez-se um levantamento de notícias e reportagens jornalísticas dos casos supramencionados a fim de lograr uma identificação preliminar de quais atores e dimensões da vida social foram afetados nestas crises relacionadas a eventos opostos, naquilo que tange à natureza hidrológica implicada. Procurou-se aglutinar os gêneros textuais principais do universo jornalístico – quais sejam, reportagens e notícias –, coletando, via website, como através da Plataforma Google, um número equivalente de matérias, em ambos os gêneros, sobre ambos os casos acima. Procurou-se, ainda, variar entre matérias audiovisuais e escritas e garantir diversidade das fontes profissionais consultadas.
Uma vez identificado o link destes registros, especificados nas referências deste estudo, fez-se a escuta, visualização e/ou a leitura dos mesmos a fim de apreender os elementos-chave dos desafios enfrentados localmente, devido às mencionadas circunstâncias adversas, bem como as providências públicas tomadas.
Resultados e Discussão
Os desastres relacionados à água têm sido um dos grandes desafios planetários, sejam eles relacionados à escassez hídrica ou às inundações. O Brasil, considerado uma nação emergente e, ainda, por conta da sua vastidão territorial e pujança econômica, é um dos países que não está isento desses desafios. Ao contrário, sofre inúmeras ocorrências relacionadas às secas, estiagens prolongadas e precipitações pluviométricas intensas e seus desdobramentos como incêndios florestais, escassez hídrica, enxurradas, inundações e escorregamentos de terra, ocorrências que se manifestam simultaneamente, porém, em porções federativas ou macrorregionais distintas no abrangente território nacional.
Nesse contexto nacional, o estado de São Paulo é considerado o mais desenvolvido economicamente e cientificamente, o que leva à suposição de um alto nível de bem-estar coletivo, tornando-o mais providente e resistente no enfrentamento de conhecidos e monitorados fatores de ameaça provindos da dinâmica de sistemas naturais, especialmente, aquelas relacionados à água doce, como os que mencionados fenômenos de estresse hídrico e de inundações. Entretanto, essa suposição deve ser colocada sob inspeção, não apenas porque uma expressiva crise hídrica ocorreu nessa unidade federativa, no ano de 2014, resultante da intersecção entre seca e desmatamento (MARENGO e ALVES, 2015), como também chuvas intensas, como as relacionadas a anomalias climáticas, precipitaram em localidades do estado de São Paulo, tal como ocorreu, no início ano de 2023, no município de São Sebastião (BIASOLI, F. e BIASOLI, S.; 2024), casos nos quais os prejuízos, perdas e danos consideráveis parecem não ter deixado as autoridades constituídas imbuídas de um senso de urgência devido quanto à adoção de medidas preparativas mais disseminadas e eficazes.
A relação do desenvolvimento econômico e da acelerada urbanização com as perpetuações de injustiças distributivas no acesso aos bens vitais, como água e moradia digna, também se reflete no modo como o excesso ou a falta de água são equacionados e manejados pelas autoridades competentes; não raro, replicam os mesmos vieses setoriais e de classe no atendimento às demandas recebidas (KOWARICK, 2009; HELLER, 2022). O contexto de aceleração das mudanças climáticas entra como o mais recente fator que pode vir a aumentar a frequência e intensidade de ambas as anomalias hidrometeorológicas mencionadas, o que exige uma mudança das concepções de gestão hídrica – incluindo os infrassistema de drenagem urbana – e incremento da mobilização social para exigi-lo (TUNDISI, 2013; HELLER, 2022). A mobilização social em torno do referido assunto é, ainda, pálida, sobretudo em se tratando de municípios paulistas interioranos, de pequeno e médio porte, cujo perfil cultural e político dominante tende a ser conservador (BRAGA, COSTA e FERNANDES, 2018).
O município de Socorro, no interior paulista, tem 449,029 km2. No ano de 2022, contava com uma população de 40.122 pessoas e densidade demográfica de 89,35 hab/km2. Em 2023, a receita municipal constava como sendo de R$ 199.139.714,121. O referido município se localiza a uma latitude 22º35'29" sul e a uma longitude 46º31'44" oeste, estando a uma altitude de 752 metros, ficando às margens do rio do Peixe e na Serra da Mantiqueira. Atualmente, a economia do município está voltada para o setor de confecções (malharias), agricultura, pecuária e turismo ecológico, esporte de aventura, cicloturismo e mototurismo. Socorro é um dos dezenove municípios paulistas considerados estâncias hidrominerais pelo Estado de São Paulo, por cumprirem determinados pré-requisitos definidos por Lei Estadual. Tal status garante a esses municípios uma verba maior por parte do Estado para a promoção do turismo regional. O município adquire, também, o direito de agregar, junto ao seu nome, o título de Estância Hidromineral, termo pelo qual passa a ser designado tanto pelo expediente municipal oficial quanto pelas referências estaduais2.
Socorro foi atingida por chuvas fortes em dezembro de 2023 e em janeiro de 2024, tendo essa última alcançado, em duas horas, 100 milímetros de água, com pontes, ruas e áreas danificadas. Um dos pontos alagados foi a Unidade Básica de Saúde (UBS), com atendimento interrompido à população. A estância turística do Circuito das Águas também ficou debaixo das águas e as 100 (cem) famílias desabrigadas foram alojadas no ginásio de esportes. A chuva alagou a região central e diversos bairros periféricos, tendo sido decretada situação de emergência pelo município. Uma das principais fontes de renda do município é a produção de malhas construída por pequenas empresas familiares, com uma cadeia de produção que movimenta o turismo, principalmente, no inverno e reflete positivamente em serviços de bares, hotéis e restaurantes. Devido às inundações ocorridas, além do comércio de malhas propriamente dito, toda a prestação de serviços dos diversos setores atrelados ao turismo de malhas sofreu prejuízos.
Por seu turno, Artur Nogueira é um município integrante da Região Metropolitana de Campinas. Localiza-se a uma latitude 22º 34'23" Sul e a uma longitude 47º 10'21" Oeste, estando a uma altitude de 588 metros. Sua população, de acordo com o Censo 2022 (IBGE), era de 51 456 habitantes, possuindo uma área de 178,026km². O município é conhecido como Berço da Amizade3. Os setores econômicos que, atualmente, mais reúnem trabalhadores são os do comércio varejista, da fabricação de produtos de produto têxteis e da administração pública e defesa e seguridade social. Tem como principais corpos d´água o Rio Piratingui, ou o rio dos peixes vermelhos, o Ribeirão Boa Vista, o Ribeirão das Três Barras, o Ribeirão do Monjolo Grande e o Ribeirão dos Pires. Possui, ainda, três represas dentro do perímetro urbano, sendo estas em áreas públicas. O município também possui uma grande quantidade de represas rurais, usadas para fins agrícolas, de irrigação ou piscicultura ou com fins ornamentais, sendo que a captação de água para o abastecimento público é feita na Represa do Ribeirão dos Pires. Além disso, possui inúmeros córregos e ainda e muitas grotas. A cidade integra o Consórcio das Bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí4.
Em junho de 2024, Artur Nogueira decretou estado de crise hídrica e estabeleceu racionamento e a administração pública local passou a diminuir a pressão nas redes de água em horários específicos. O manancial que abastece a cidade estava em 40% do total de disponibilidade hídrica. Por conta da falta de chuvas e da redução considerável dos níveis da represa que abastece a cidade, a prefeitura decretou "estado de crise hídrica" e estabeleceu uma série de medidas para tentar evitar que o município passasse por uma situação ainda mais drástica de falta d'água. Entre as medidas técnicas postas em curso, esteve a diminuição de pressão na rede de água, em horários específicos, o que a prefeitura já considera como uma prática de racionamento hídrico. Além do decreto de estado de crise hídrica, as autoridades locais – o prefeito municipal, a partir das recomendações da defesa civil –, também decretaram “situação de emergência” por conta da estiagem. Consta que a represa Cotrins, principal fonte de captação de água da cidade, esteve, à época, com "nível precário", de 1,65m abaixo do normal e, caso chegasse a 1,80m abaixo do normal, o manancial já atingiria o volume morto. Além do racionamento, também foi determinado a suspensão da captação de água da represa Cotrins por duas horas por dia, na tentativa de recuperação do nível da lagoa5.
Os aspectos acima foram contemplados, ainda que de forma superficial, pelos veículos de comunicação que se interessaram na cobertura de ambas as emergências e cujas matérias estão listadas na Tab.1, abaixo, e sobre cujos achados discorremos em seguida.
Tabela1: Matérias jornalísticas acerca das emergências ocorridas nos municípios de Socorro e de Artur Nogueira
Elaboração: as autoras.
Conforme observado pelos achados jornalísticos apresentados no Quadro 1, abaixo, no que concerne ao plano territorial da vivência destes dois tipos de emergência recentemente ocorridas no interior paulista, respectivamente em Socorro e em Artur Nogueira, inundações e crises hídricas, a concretização do fator de ameaça exigiu o deslocamento das pessoas de seu território de vivência e/ou de trabalho, como ocorre em situações semelhantes em outras localidades do país (VALENCIO, 2019). No caso de Socorro, estruturas móveis e imóveis foram danificadas ou destruídas e as pessoas (moradores, trabalhadores, empresários, clientes) nelas inseridas e a elas vinculadas não puderam permanecer em razão do risco iminente à vida e à saúde naquelas circunstâncias. No caso de Artur Nogueira, perderam tudo aquilo que dependia de água para sobreviver, de plantas a animais de criação, além de atividades econômicas e domésticas, cujo exercício foi inviabilizado, tais como o funcionamento de lava-rápidos, de bares e restaurantes, higienização residencial e corporal, o que induziu moradores a despenderem recursos financeiros extraordinários para acessar provimentos hídricos alternativos ou se deslocarem para outras localidades, como residência de parentes e amigos, para lidar com algumas de suas necessidades hídricas emergenciais. Serviços cuja oferta foi inviabilizada fez desaparecer os potenciais clientes e/ou fregueses, com decorrentes perdas de fluxo de caixa e receita necessária para cobrir gastos fixos e variáveis, de aluguéis a salários e fornecedores.
No plano material, muitos bens móveis/imóveis, de uso público ou privado, sofreram danificação ou perda total em decorrência de inundações, implicando que objetos neles contidos – tais como instrumentos e ferramentas de trabalho e/ou utensílios relacionados a atividades extraeconômicas – foram igualmente danificados ou destruídos. Isso produziu efeitos deletérios nas rotinas da moradia, do ambiente de trabalho, de utilização de veículo automotivo, de equipamento computacional e escolar, dentre outros (VALENCIO, N e VALENCIO, A., 2018a).
Em relação ao âmbito econômico, que está interligado aos anteriores, enfatiza-se o campo trabalho, formal e informal, e da obtenção de renda para a garantia dos mínimos vitais e sociais, na realização do consumo e viabilidade da produção e circulação de bens. Significa que o discurso jornalísticos deveria ter uma abordagem voltada para a verificação da existência de condições alternativas de trabalho, se trabalhadores permanecem executando o seu trabalho e através de quais novas e precárias estratégias como o fazem, se as condições de obter renda são em patamares compatíveis com os tempos regulares instituídos em sua jornada formal, se existem políticas de proteção social acessíveis para aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade extrema nessas circunstâncias, como o auxílio emergencial, se há outros modos de produção e circulação de bens ou serviços, seja naquela mesma localidade ou mesmo em outra escala de abrangência das atividades econômicas (FERGUSON, 2021; FIELDS, 2023).
Em relação à dimensão simbólica, seja no campo da materialidade, da espacialidade, aa vida econômica ou mesmo da vida social cotidiana, a forma como o sujeito afetado interpreta essa perda repercute como ferida emocional, que atinge o sentido de propósito da vida, o sentido do próprio eu, na constituição da sua identidade, nas suas relações de natureza espiritual, o que se traduz em singularidades da experiência de sofrimento que a mídia profissional tem tido mais sensibilidade para capturar, dado o apelo da empatia que seu público possa vir a ter com aquele sujeito. Porém, são perdas multifacetadas que nem sempre o discursos jornalístico valoriza. Há perdas do objeto de memória, de fotografias, de objetos de valor afetivo, de objetos religiosos de grande significação no entendimento de si no mundo (DAS, 2020; DOUGLAS, 2007).
Por fim, há dimensão social e contextos de inundações e de crise hídrica podem comprometer o enredamento público e privado da vida cotidiana do sujeito, esgarçando-os, algo que exigiria um olhar mais atento da prática jornalística de abordagem aos sujeitos afetados na localidade em desastres. Há rompimento nas rotinas de encontro e exercício de papeis socias complementares, nas rotinas de relações afetivas – seja por conta do desaparecimento de entes queridos, seja porque uma parte da comunidade se mudou, definitiva ou circunstancialmente, para outra localidade – e os laços de convivência e vizinhança foram se desfazendo (TURNER, 2012). Segundo Das (2007), a linguagem dos sujeitos em sofrimento tem de expressar a historicidade das suas vidas, por meio dos discursos que apresentam as subjetividades implicadas, numa realidade de dor e injustiça, e que pode alcançar a forma de resistência (noutras, silenciadas por opressões explícitas ou tácitas).
Os aspectos acima foram explorados em registros jornalísticos simplificadores desses dramas, reduzindo o tamanho da condição humana dos que os vivenciaram e, por conseguinte, orientaram providências públicas comezinhas aos que os podiam – e deviam – compensar ou reparar tais situações entretecidas de sofrimento social (AMARAL et al., 2010; BARRIOS, 2017). Salienta-se que as menções aos jornais indicadas abaixo podem ser todas retiradas das referências, pois já estão na tabela 1
Quadro 1: Dimensões de perdas, danos e providências públicas nos casos de Socorro e Artur Nogueira, segundo os registros jornalísticos acessados
| Dimensão/Contexto local | Emergência relacionada ao estresse hídrico (Caso Artur Nogueira) |
Emergência relacionada a chuvas intensas (Caso Socorro) |
|---|---|---|
| Econômico -financeira-material | 5 menções na imprensa Impossibilidade/ limitação de funcionamento de escolas, comércio, aparelhos públicos |
11 menções Danificação de malharias, equipamentos, lojas e casas Prejuízo da rede hoteleira e restaurante |
| Rotinas da vida doméstica e pessoal | 5 menções na imprensa Inviabilidade da higienização da casa, higienização corporal, e demais atos diários, como cozinhar |
3 menções Sobre inundação de escolas e hospitais, afetando diretamente a rotina dos moradores |
| Psicossocial | Nenhuma referência | 1 menção Desalento de costureira e de uma cabelereira que perderam casa, salão e a tristeza devido ao evento hídrico |
| Ambiental (impressões sobre o entorno) | 14 menções na imprensa Quantidade de tempo que a cidade está em estiagem, que não chove na cidade, tampouco em cidades próximas, fotos de rios e córregos que secam |
11 menções Fotos das inundações, ruas alagadas, carros arrastados, pessoas tirando a lama das casas e do comércio, com destaque para a quantidade de ml de chuva em poucas horas |
| Destaque para as medidas/soluções propostas pelo Poder publico | 14 menções sobre as medidas que já foram tomadas e outras que serão tomadas pelo Poder Público, além das doações ofertadas pelos entes públicos, como água e caminhões pipa. Ajuda financeira de outras esferas públicas para construção de represas, de poços | 11 menções sobre as medidas que serão tomadas, construção de piscinões, o abrigo em ginásios de esporte, a doação de alimentos e roupas de toda parte do país, ajuda financeira de outras esferas públicas |
Elaboração: as autoras
Conclusões
Em comparação com a possibilidade de aceder privilegiadamente espaços e pessoas em meio à fase mais aguda de emergências, o olhar jornalístico da grande mídia ou de mídias profissionais locais ainda tem sido tímido para explorar a multidimensionalidade do sofrimento social e a problemática da qualidade das providências públicas que foram tomadas na ocasião ou que se deixou de fazê-lo.
Diante o caso das inundações ocorridas no município de Socorro/SP, viu-se o destaque das matérias jornalísticas às perdas econômicas – portanto, à esfera da vida pública comunitária –, enquanto que, em Artur Nogueira, foi ressaltado o âmbito da vida cotidiana nos afazeres domésticos (limpeza doméstica interna e externa; lavagem de vestuário e afins) e de satisfação de necessidades vitais (comprometimento das condições regulares de dessedentação humana e animal, higienização corporal, cocção de alimentos e afins).
Destaque também houve, nos registros jornalísticos analisados, às providências de resposta que as autoridades públicas e o meio técnico tomaram uma vez declarada a emergência, deixando-se de explorar mais detidamente as razões pelas quais as estratégias preventivas e preparativas que pudessem ter evitado ou mitigado tais danos e prejuízos não foram tomadas no tempo devido, isto é, no período anterior à manifestação de tais eventos. Em ambos os casos, tratar-se-ia de providências infraestruturais relacionadas à drenagem urbana (caso de Socorro) e aumento da reservação antecipada de água para fins de abastecimento em época de estiagem (caso de Artur Nogueira). O fato de serem ambos municípios de médio porte – Socorro no estrato 4, de 20.001 até 50 mil habitantes, e Artur Nogueira no estrato 5, de 50.001 até 100 mil habitantes – lhes poderia dar as condições institucionais e técnicas necessárias para saber captar preventivamente os recursos necessários para tais obras de grande envergadura. Mas, essa discussão foi posta de lado na interpretação jornalística da situação. Por fim, a diversidade dos modos de vida dos sujeitos em sofrimento nessas circunstância poderia ter sido mais bem apresentado ao público para que os modos correspondentes de enfrentamento da situação e de sofrimento social pudessem ter sido igualmente ressaltados, ampliando, assim, a compreensão pública sobre a multidimensionalidade destas crises.
AGRADECIMENTOS
N.V. agradece à Fapesp, processo número 2022/09136-1 e ao CNPq, pelo apoio na forma de Bolsa de Produtividade, processo número 316828/2023-8.
C.M.F.B. agradece à CAPES pela Bolsa de Doutorado.
Referências
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Disponível em: Artur Nogueira – Wikipedia, a enciclopédia livre. Acesso em: 24 de agosto de 2024.↩︎
Disponível em: Com represa em nível 'precário', Artur Nogueira decreta estado de crise hídrica e estabelece racionamento | Campinas e Região | G1. Acesso em: 27 de agosto de 2024.↩︎